“Uma terapia intensiva”

CAPÍTULO 10

ADI/TIP, décima e última sessão

Como se vê, não desisto facilmente; eu tinha vindo até ali para realizar um trabalho, e, a despeito dos percalços, eu o faria até o fim.

Pela manhã, fiz o TRI final e disse à psicóloga, Maria Elisa, que ainda não percebia nenhuma melhora evidente, talvez porque as sessões com o Dr. Ytzhak me deixassem muito tenso e ele havia sido agressivo comigo.

Os registros seriam levados a ele para que pudesse avaliar o andamento do trabalho, e assim, fui apreensivo para a última sessão, temendo que ela o houvesse alertado sobre a minha opinião. No entanto, surpreendentemente, a sessão acabou sendo muito produtiva: as cenas

vinham rápido à mente e se desenvolviam celeremente, num bate-pronto veloz. Temo não conseguir recuperá-las in totum.

Para meu desapontamento, ele me pediu números relativos (ainda!) a meu pai; mas vamos lá: vi 00.

— Algum dos zeros é defeituoso?

— O da direita, irregular na parte superior.

— Veja o espermatozoide que produziu o seu pai.

— Negro, anda como uma lagarta, corcoveando.

— Veja números que expliquem isso.

— 2.

— Com zero ou sem zero?

— Sem.

— Veja uma cena de seu pai aos dois anos.

— Ele está vestido de menina, de vestidinho e chapeuzinho, tipo uma touca.

— Que mais?

— Ele está numa festa e as pessoas riem dele.

— É uma brincadeira?

— Sim.

— E ele?

— Chora.

— Por quê?

— Porque ele não é mulher.

— ELE NÃO É MULHER! Se se sentisse mulher, não choraria! Veja a cena anterior.

— Há duas crianças, uma menina e o menino; a mãe do menino põe a roupa da menina nele.

— Por quê?

— Ela queria uma menina.

— Por quê?

— Para companhia.

— Ah! Para companhia! Veja o menino agora.

— Está com roupa de menino, correndo e brincando.

— Veja novos números que confirmam que ele é homem.

— 6 e 3.

— Seis.

— Ele está indo pescar sozinho e a mãe está preocupada.

— Mas uma menina também poderia ir pescar; o que é que o faz parecer homem, parecer que tem coragem?

— Ele vai alegre e saltitante.

— Ah! Ele vai alegre e saltitante! Número três.

— O menino é atacado por um cãozinho e reage, avançando no cãozinho.

— E o cãozinho?

— Foge.

— Uma menina dificilmente atacaria o cachorro. Veja agora aquele zero defeituoso

do começo.

— Está perfeito.

— E o espermatozoide que criou seu pai?

— Está normal.

— O que é normal? Descreva.

— Está claro, brilhante e andando reto, em frente.

— E o espermatozoide de seu pai, que te criou?

— A mesma coisa.

— Bem, a parte da terapia relativa ao seu pai está completamente resolvida, e isso é mérito seu, não é do terapeuta, não. Suas dúvidas em relação à sexualidade não existem mais. Precisaríamos de mais umas três sessões para resolver as questões relativas à sua mãe.

— E isso concluiria a terapia? — estranhei, pois mal tocáramos em questões relacionadas diretamente a mim.

(Essa terapia, segundo o livro, trabalha as raízes inconscientes mais profundas, de gerações precedentes, o que bastaria para resolver problemas das gerações futuras, como se fossem as raízes de uma árvore, que, curadas, saneassem os galhos doentes).

— Sim.

— Preciso então me preparar — eu disse, sem convicção — pois não foi fácil ter vindo.

Saí mais aliviado. Dei-lhe o livro que eu publicara, sem dedicatória, apenas com o nome do instituto; passei na pousada, peguei as malas e fui direto para o aeroporto. Estava morrendo de saudades das crianças, de minha casa, minha mãe, minhas irmãs, do S.A., do Fran’s…

Quanto a voltar ou não, estava mais propenso a fazê-lo, mas iria me reorganizar primeiro e deixar a poeira assentar, ver como me sentiria após esse trabalho estafante.

Ribeirão Preto, novembro/dezembro de 2001.

ALBINO CLAREL BONOMI

Rua Humaitá, 461, Apto. 83

14020-680 – Santa Cruz – Ribeirão Preto – SP

e.mail: acbonomi@yahoo.com.br

Fones (16) – 99602.2103 – 3623.5929

 EM TEMPO: Para melhor entender o contexto em que se passa este relato, quem se interessar poderá se reportar a “O Ciclo Gestatório de um Homem”, do mesmo autor, em edições física e digital.

 

 

 

 

 

 

 

“Uma terapia intensiva” – Cap. 9 – cont.

Façamos uma pausa, e raciocinemos juntos: eu sempre soube, de antemão, que minha avó, mãe de meu pai, que eu nem conheci, pois falecera quando meu pai ainda era criança, nem sei de quê, era certamente uma mulher doente, de saúde frágil, de modo que sempre a vi, nessas minhas visões do inconsciente, como uma mulher doente, frágil, embora meu pai fosse o primogênito e ela ainda tenha tido mais dois filhos antes de falecer, quando meu pai tinha meros nove anos de idade; meu avô daria então os filhos para parentes criarem, e eles sofreriam horrores.

Até onde o que vi e relatei ao terapeuta foram cenas reais vividas, e resgatadas por meu inconsciente? Ou teriam sido apenas cenas prováveis, imaginadas pela minha mente inteligente e fértil, embora sob a pressão que era exercida sobre mim e a urgência com que era cobrado? Eram, de qualquer maneira, cenas muito vivas e reais as que eu vislumbrava, e, como disse Maria Lúcia, isso não tinha importância, sem falar que o Dr. Ytzhak, apesar de sua aspereza, tinha muita experiência — isso não se podia negar — para saber diferenciar o “real” do imaginário.

— Como está se sentindo agora? — perguntou. — Deve estar relaxado… eu também estou relaxado. O terapeuta sente, e relaxa quando se chega à verdade.

Concluindo: um erro de comunicação que começou na sessão anterior, e do qual acredito não ter tido culpa — naquele lusco-fusco, naquela mescla de tensão e relaxamento, entre o consciente que não se desativa e continua atuando e um inconsciente que aflora, esta, aliás, sendo a essência desse trabalho, combinados à minha já clássica dificuldade auditiva —, desaguou nessa confusão toda. Não que eu não pudesse estar sendo resistente, é claro que isso era possível, deve haver pacientes que desenvolvem um trabalho muito mais produtivo, mas é inegável que o terapeuta foi de extrema arrogância, prepotência, e, ouso dizer, onipotência, pecado capital para um analista; além disso, desde o início ele me passara a impressão de certa

frieza, certo distanciamento, e mesmo de enfado com seu trabalho — posso, é claro, estar sendo muito rigoroso e injusto com ele. Sei que lançava mão desse tratamento — ou técnica — de choque para despertar, chacoalhar, mas me senti frágil, medíocre, pequeno, humilhado, como

se estivesse diante de meu pai quando criança, ou mesmo dos Moneys e Galhardos desta vida, que tanto mal me fizeram. Na minha idade, eu ainda me sujeitava a isso!

Quase faltei à última sessão com o médico psiquiatra — aquele outro, que costumava se atrasar — para a avaliação final, mas este foi gentil e didático, e me deu orientações úteis.

O futuro dirá! Ou, como diria aquele ex-presidente maluco, aquele do confisco: “O tempo é o senhor da razão”.

 

 

“Uma terapia intensiva” – Cap. 9 – cont.

— Talvez seja um bom caminho — amenizou ele.

— 06 — vi então, com clareza.

— Veja então o que aconteceu no sexto mês de gestação de seu pai.

— A mãe dele está doente e vomitando.

— Isso ela deve fazer sempre; por que hoje?

Minutos angustiantes.

— Veja um número onde ocorreu o contrário dessa cena.

— 9.

— Com zero ou sem zero?

— Sem.

— Veja uma cena com seu pai aos nove anos.

— A mãe dele está doente e o pai está junto a ela, acariciando-lhe os cabelos.

— Onde está seu pai?

— Junto a eles.

— O que ele sente?

— Que eles se amam.

– –Eles se AMAM! Voltemos agora à cena anterior.

— A mãe de meu pai está vomitando, seu marido vai trabalhar e nem presta atenção a ela.

— O que acontece com o bebê?

— Para de se mexer e vai ao fundo do útero, como se estivesse morto.

— O que ele sente?

— Que o pai não ama a mãe.

— E ele, o que acha de si?

— Que não é nada.

— NÃO É NADA!!! Mas será que o pai não quis mesmo saber da esposa?

— Ele não podia se atrasar, tinha que pegar o caminhão.

— Ah! Ele não podia atrasar… Veja melhor a cena.

— Ele olha para trás.

— E se ele tivesse tempo?

— Ele voltaria e acariciaria a esposa.

— O que isso significa?

— Que ele ama a esposa.

— Ele ama a esposa! E o bebê?

— Abre os olhos e volta a se movimentar.

— Como era o espermatozoide de seu pai?

— Negro, com um caroço em cima, e anda em zigue-zague.

— E agora?

— Claro, sem o caroço, e se movimentando para frente.

 

“Uma terapia intensiva”

CAPÍTULO 9

ADI/TIP, nona e penúltima sessão

Por pouco que hoje não ocorre outro desastre irremediável; eu estava hiperansioso

para adentrar temas fundamentais da minha infância, e, principalmente, de minha vida intrauterina e da própria concepção, pois havia tanta coisa ainda para esclarecer que essas duas últimas sessões seriam insuficientes; para meu desespero, senti que o trabalho ia ficar incompleto.

O terapeuta me pediu — devia ter os seus motivos, é claro — que ainda visse números

relativos ao meu pai! Veio-me imediatamente à mente aquela mesma placa com os números de minha infância, que havia se fixado em minha mente:

— 6.

— Com zero ou sem zero?

— Sem.

— Veja uma cena com seu pai aos seis anos de idade.

— Vi meu pai com estilingue, vi meu pai na mangueira, e vi meu pai pescando na beira de um rio.

— Bem, pescar, ele deve pescar sempre… que mais?

— O pai dele passa e o pega, e os dois vão embora.

— Você não está entendendo… — senti-o se irritando novamente.— Terapia é para ver problemas, para resolver problemas.

— …

— Você está imaginando essa cena, não é?

A seguir, fiquei confuso, perdido, tentei compreender e “ver” ao mesmo tempo, e rezei, e pedi ao sábio, e fiz uma ou outra pergunta ao terapeuta, com o intuito de compreender o que ele queria.

— Você está me questionando, discutindo comigo, ao invés de ver através do seu inconsciente…

— Eu não estou entendendo o que é que eu deveria ver…

— O que você devia era fazer um curso para saber o que é uma terapia.

— …

— Tá bom, é melhor parar por aqui, estou perdendo meu tempo e você está perdendo o seu.

Sem me levantar, com os olhos fechados, achei mesmo que ele estava se levantando e encerrando o trabalho comigo.

— Pela última vez, Bonomi, veja bem, pela última vez, ou você quer se ajudar, ou você VÊ o que não quer ver, ou acabou…!

Você, leitor, pode até pensar que estou dramatizando o fato, mas foi exatamente assim, aos brados, que ele se dirigiu a mim. Só Deus sabe por que não me levantei e o esbofeteei como acho que ele merecia — ele não era muito maior que eu —, ou o mandei à puta que o pariu; mas eu não podia me dar a esse luxo e deixar o trabalho incompleto, não era só uma questão de receber uns trocados de volta, era a minha vida que estava em jogo. Tentei me acalmar, passei as mãos pelo suor do rosto, pelos cabelos, pedi-lhe que esperasse um pouco; confuso, agitado, pedi novamente inspiração ao meu sábio e disse ao terapeuta que estava tentando ver novamente a placa com os números.

“Uma terapia intensiva” – Cap. 8 – cont.

— Mas eu não entendi direito, não devo ter compreendido suas pretensões iniciais (ele falava a alguma distância, detrás de sua mesa, muitas vezes mexendo em papéis, com a voz um pouco baixa, eu tinha certa dificuldade auditiva, e às vezes tinha que lhe perguntar o que havia

dito, o que atrapalhava minha concentração).

— Tudo bem, vamos então voltar e ver números relativos ao seu pai.

Tentei não perder a calma. Mantive-me deitado, os olhos fechados, trêmulo, e demorei

a me concentrar novamente; boa parte do tempo da sessão já fora gasto, além de já ter começado atrasada — ele se atrasara com a paciente anterior. Depois de hoje, só restariam mais duas sessões; eu não estava em condições de criar uma polêmica. Meire já havia me alertado sobre essa possibilidade, que já ocorrera com outros hóspedes seus, e ela achava que era assim mesmo, para o bem do paciente; na verdade, acredito, aquilo que deveria ser uma exceção — como bem exemplificado nos livros de Jost de Moraes —, que era uma técnica terapêutica perfeitamente válida, usada para chacoalhar, para pôr em xeque o analisante resistente num momento preciso, pareceu-me ter sido tornado rotina pelo Dr. Ytzhak, que a empregava invariavelmente com todo paciente — posso, é claro, estar enganado, mas o meu caso foi muito emblemático.

— 1, 4, 6.

— Tem zero à esquerda dos números?

— Não.

— Veja uma cena de seu pai com um ano de idade.

— A mãe troca o menino, mas tem dificuldade, pois ela está doente.

— E o que acontece?

— O pai a ajuda.

— …

— E eles se olham, sorrindo.

— O que isso significa?

— Que eles se amam.

— Agora, aos quatro anos.

— O menino está atirando com um estilingue.

— Que mais você vê?

— …

— …

— Nada.

— Nada?

— Nada.

— Peça então ao sábio que mostre uma cena contrária a essa.

— O pai do menino passa por ele e nem lhe presta atenção.

— O que o menino sente?

— Que é nada.

— Será que é isso mesmo?

— Não, o pai passa rápido porque ele quer ver logo a mãe do menino, que está doente.

— O que acontece então com o menino?

— Levanta a cabeça e sorri.

— Por quê?

— Por que o pai é bom.

— Cena aos seis anos.

— O menino subindo numa árvore e apanhando uma fruta.

— Que fruta?

— Manga.

— O que ele faz com a fruta?

— Leva para os pais, que estão juntos.

— Por que só uma manga?

— Para que eles comam juntos, para uni-los.

— Então o menino…

— Une.

— E quem une?

— É bom.

— Sim, o menino (seu pai) é bom.

Não me lembro bem agora como foi a proposta, mas numa cena            seguinte, o pai — meu avô —bate no menino, e o deixa só e chorando.

— E o que faz o menino?

— Puxa os próprios cabelos.

— Com força?

— Sim.

— Por quê?

— Para se punir, acha que merece ser punido.

— Por quê?

— Para proteger o pai dele.

— Por quê?

— Porque é bom.

— O menino (seu pai) É BOM! Isso tudo é revelador, isso salva, isso ressuscita! (mas quase me mata!)

Saí tão atarantado da sessão que esqueci o celular e os óculos escuros na sala do terapeuta. Era aniversário de Nirvana, teria que ligar para ela, e não foi fácil voltar a subir e descer novamente aquelas ruas longas e íngremes para buscá-los!

 

“Uma terapia intensiva”

CAPÍTULO 8

 

ADI/TIP, oitava sessão

Foi uma sessão surreal e quase tudo foi posto a perder, entendo-se por tudo o que nem eu ainda sei direito, não sei ainda aonde esse trabalho vai me levar, se é que está me levando a algum lugar; as coisas estão tão arraigadas no meu âmago, que talvez seja assim mesmo, talvez

leve algum tempo para que as mudanças possam ocorrer.

O terapeuta pediu-me que visse números, e eu os vi. (Conscientemente?)

— 6, 9, 11.

— Vamos então aos seis anos de idade.

Vi-me novamente na carroça com meu pai, ao lado da mesma igreja.

— Mas essa cena nós já vimos; o que ficou para trás?

— Eu olhei para trás e vi nossa casa, onde nasci; e vejo acontecimentos da noite anterior.

— O que você vê?

— Meu pai batendo em minha irmã mais velha.

— Batendo com quê?

— Com um cinto.

— Você vê a cena?

— Não, eu estou na cama, apenas ouço, em pânico.

— Ele só bate ou fala alguma coisa?

— Fala…

— O quê?

— “Vagabunda!”

(Esse foi um dos acontecimentos mais marcantes de minha infância, e jamais o esqueci; essa cena me veio então à mente com muita força, numa mistura consciente/inconsciente, e eu falava de forma entrecortada, emotiva, quase chorando).

— E o que a criança faz?

— Encolhe-se toda, na cama.

— Toda?

— Sim.

— Mas o que ela encolhe mais?

— As pernas.

— Por quê?

— Para não fugir.

— Por quê?

— Para ficar presa.

— Ficar presa?

— Sim, presa aos desejos do pai… não poderá fugir aos desejos do pai.

Até hoje ainda não consegui compreender o que se passou a seguir; Dr. Ytzhak ficou repentinamente, pode-se dizer mesmo, possesso, extremamente irritado comigo, porque, pelo que pude entender, naquele torvelinho, em que eu estava falando da minha infância, ele queria,

na realidade, que eu vislumbrasse cenas da infância, mas do meu pai, em sequência à sessão de ontem, quando tratávamos da vida dele, fosse de sua infância ou mesmo de sua gestação. E foi de extrema severidade comigo, esbravejando:

— Bonomi, ou você faz o que eu quero, segue a sequência estabelecida, ou a gente encerra o trabalho agora mesmo e você pode ir embora; é só passar na secretaria que eu devolvo o dinheiro que você me pagou; você é mesmo fixado no seu pai!

Levei um grande susto, primeiro pela dureza quase histérica com que me falava, como se eu fosse uma criança — o filho dele, quem sabe —, ou estivesse deliberadamente resistindo aos objetivos do trabalho.

“Uma terapia intensiva”

CAPÍTULO 7

 

 

ADI/TIP, sétima sessão

Foi uma sessão complexa, sem dúvida alguma; espero ser o mais fiel possível no relato de seu transcurso, mais uma vez cheio de lacunas e pausas.

— Está vendo a cisterna, o seu inconsciente? E o fundo? Pois veja dois zeros.

— Sim.

— São perfeitos?

— Não, o da direita é irregular na parte superior.

— Imagine, então, a sua concepção, o óvulo e o espermatozoide.

— Sim.

— Como são?

— O espermatozoide é escuro.

— Escuro… como se parece?

— Cilíndrico, comprido… como um espermatozoide.

— Mas eu não sei como é um espermatozoide; conheço de livro, quero saber como você o vê aí.

— É comprido, preto, com uma bola em cima, como uma corcova.

— Com um caroço em cima; vamos ver alguns números de seu pai.

— 9, 1.

— Vamos ver seu pai com um ano de idade.

— Está na roça, brincando.

— Sozinho?

— A mãe está na varanda, sentada em uma cadeira; parece doente.

— Como, parece doente?

— O menino cai e ela não se levanta para pegá-lo.

— O que isso significa para o menino… a mãe não se levantar para pegá-lo?

— Que não é amado.

— E depois?

— O menino olha para a mãe e ela tenta se levantar, mas não consegue.

— O que isso representa para o menino?

— Que tem o poder de se fazer amar.

— Vamos ver a gestação desse menino; veja números com zero à esquerda.

— 01, 03.

— Veja sua avó no primeiro mês de gestação.

— Ela está na varanda.

— Como está o menino?

— Parece um girino, preto; movimenta-se pouco, quase parado.

— A mãe o percebe?

— Não.

— O que o menino sente, então?

— Que é nada.

— E a mãe?

— A mãe vira-se e olha para o rio, pensando em se matar.

— Por quê?

— Sente-se doente, sem condição de ter esse filho.

— E o filho, o que faz?

— Vai para o fundo do útero, quieto, como se estivesse morto.

— Por quê?

— Quer morrer, para que a mãe possa viver.

— Por quê?

— Porque é bom.

— E a mãe?

— Vira-se novamente e sorri.

— O que o bebê sente?

— Que salvou a mãe.

— Como ele se sente, então?

— Que é bom.

— Como ele fica?

— Claro, se movimenta.

— E o espermatozoide?

— Cai o caroço de suas costas.

— E como fica sua cor?

— Clara, também.

— Vamos ao terceiro mês da gestação de seu pai.

— Ela (a avó) está fazendo pão, enrolando a massa.

— Sozinha?

— Sim.

— O que faz o menino?

— Movimenta-se, chamando a atenção da mãe.

— E o que acontece?

— A mãe olha e o pai aparece.

— E o menino?

— Mexe-se mais ainda, e a mãe dá um pedaço de pão na boca do pai.

— O que ele sente?

— Que tem capacidade de unir.

— E quem tem capacidade de unir é…

— Bom!

— Isso! Seu pai é BOM! Esse é o verdadeiro núcleo dele, apesar de todas as complicações!

 

 

“Uma terapia intensiva” Cap. 6 – cont.

— Por que a criança teria chutado a mãe?

— De raiva, para ela reagir.

— Mas por que usou a perna, e não as mãos?

— Porque as pernas são mais fortes.

— Ah, as pernas são mais fortes! E por que a perna esquerda e não a direita?

— Porque a esquerda é mais fraca, e a mãe é fraca.

— Ah, a esquerda é mais fraca, e a mãe é fraca! E quem é forte?

— O pai.

— Olha só que coisa… forte e fraco… as raízes da sua ambivalência…e não falo de uma possível ambivalência sexual, não… porque não acho que você seja ambivalente nessa área, mas ambivalente em sentido mais amplo… e por que será que o menino se fez ambivalente?

— Para ser amado pelo pai e pela mãe.

— Será? Não seria o contrário? Não seria porque era forte para poder amar o pai, mas também se fazia de fraco para poder amar a mãe?

— Sim, a criança é capaz de amar.

— A criança é capaz de amar… essa criança é capaz de amar…sem dúvida…e quem ama…

— Une.

— Veja a cena.

— O pai volta até a porta da cozinha, enquanto a mãe recolhe a trouxa de roupas, e ambos se olham.

Acabou a sessão, e questionei o terapeuta sobre minha dificuldade de visualização,

de compreensão, em que ele cercava, dirigia, quase concluía…

— Bem, é para isso que existe o terapeuta.

Claro… é claro.

No caminho de volta, vim refletindo: forte e fraco… ambivalência…se refletindo negativamente nas relações afetivas, na profissão… mas como tudo invariavelmente tem seu lado positivo, não seriam também essas as raízes que fizeram de mim um homem ideal, onde coexiste o mais perfeito equilíbrio entre uma alma masculina — animus — forte, de personalidade marcante, que não desiste, que expressa suas opiniões e sua vontade, e uma alma feminina — anima — sensível, doce, poética, capaz de expressar seus sentimentos, num amálgama perfeito que me tornaram um pai admirável, com resultados por demais evidentes?

Não, pensando bem, não creio que seja por aí, isso gera muito sofrimento, muita angústia, muita incerteza, muita dor e indecisão; creio que um homem — ou uma mulher — pode ser por natureza forte, completo, inteiro, não cindido, coexistindo nele sem conflitos o que há de melhor em ambos os gêneros.

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“Uma terapia intensiva” – Cap. 6 – cont.

ADI/TIP, sexta sessão

A terapia, nessas condições, foi novamente arrastada e dirigida. Fui levado até o oitavo mês de gestação; vi minha mãe de forma nítida na casa onde eu nascera, em Canindé, grávida, no final da gestação, estendendo uma grande colcha branca que acabara de lavar no varal do quintal. Percebi-a cansada e desanimada; o terapeuta apertava, instigava, mas a cena marcante, incomum, que realmente interessava, não aparecia, pois, ele repetia, “lavar e estender roupa, isso ela fazia sempre”.

Então, vi meu pai surgir na porta da cozinha com um saco de roupas — presumi que fosse todo o uniforme do time de futebol da “cidade”, que ele costumava trazer para ela lavar, esgotando-a sobremaneira— que deixou rolar no chão, afastando-se, como se minha mãe — e

eu, dentro de sua barriga — não existíssemos.

— Se o pai agiu assim — disse o terapeuta — o que a criança pensou de si? Que era…

— Nada.

— A criança sentiu que era nada; o que ela fez então?

— Agitou-se dentro do útero, chutando a barriga da mãe.

— Com que perna?

— Esquerda.

Faço uma pausa para, honestamente, esclarecer ao leitor que essas cenas vislumbradas deviam ser uma mescla de lembranças conscientes, remotas embora, misturadas à intuição inconsciente, sendo difícil caracterizar com clareza, com segurança, qual a porcentagem de participação de cada instância psíquica; mas talvez não possa mesmo ser diferente em terreno tão movediço, fluido, pantanoso. Assim, quando disse, de supetão, “perna esquerda”, cumpre ressaltar que foi mais pela minha perna doente, que me veio à mente naquele instante, do que por uma visão nítida da cena primitiva. Ora, consciente e inconsciente são duas faces da mesma moeda, e que se imbricam, se mesclam, se confundem…

“Uma terapia intensiva”

CAPÍTULO 6

O segundo fim de semana que passei em Belo Horizonte foi excelente. Eu já andava um pouco enjoado da comida da pensão e do cheiro da cozinha, e fui sozinho à noite a um bar próximo, a pé, para tomar uns chopes e comer alguma coisa — já estava sentindo falta de minhas saídas em Ribeirão Preto.

Fazia duas semanas que estava em BH com o tempo altamente instável e chuvoso. Acordei cedo no sábado, mas não muito, e caía uma chuva fina e constante. Sempre de guarda-chuva, peguei um circular e fui até a rodoviária, onde tomei um ônibus para Ouro Preto, a cidade histórica a cerca de duas horas de viagem; era meu último fim de semana na cidade e eu não queria perder essa oportunidade.

Em Ouro Preto choveu incessante e torrencialmente, sem um instante de trégua, como há muito eu não via acontecer. Com o guarda-chuva e uma mochila a tiracolo, fiz o que tinha

que fazer: vi as magníficas igrejas por fora — todas fechadas àquela hora —, andei por suas

ruelas paradas no tempo, tirei fotografias, comprei bijuterias de pedras para presente e almocei a comida típica mineira em um restaurante para turistas. Fiquei encharcado das pernas para baixo, mas aquela chuva adorável me lavava a alma, causando-me um prazer como há muito não sentia — esse fora um dos anos mais secos em nosso país, com apagão e tudo, e eu estava sentindo falta das chuvas, que eu tanto amo.

Voltei à tardezinha, e à noite saí com duas amigas ótimas, uma das quais, Xênia, uma advogada amiga de Meire, foi muito gentil e me ciceroneou pela cidade; fomos a uma boate, jantamos, tomamos chopes e dançamos. No fim de noite o tempo mudou completamente, e uma

imensa lua cheia coroou a noitada excelente.

Domingo acordei com sol, fiz uma longa caminhada até a famosa feira hippie da cidade e à tarde voltei até a rodoviária para comprar alguns livros raros de uma coleção recém-lançada que havia visto na banca — Cícero, Marco Aurélio, Ovídio, Marco Polo — e alguns clássicos

infanto-juvenis para Lelê; no dia anterior o dono da banca não aceitara meu cheque de São Paulo, quase o mandei à PQP, mas relevei e preferi não perder a rara oportunidade. De lá fui a um shopping comprar umas camisas e uns CDs duplos — Chico e Baden — que havia visto antes e ficara em dúvida se devia ou não gastar com isso; valeu a pena, pois apesar da despesa imprevista, foram aquisições admiráveis que me fizeram feliz.

Li jornal até quase meia-noite e fui dormir, mas tive dificuldade; nas primeiras noites eu tinha tomado Lorax, pois andava tenso e temia pelo desenrolar da terapia, na qual botava muita fé. Era uma situação difícil, estressante, que requeria forte poder de concentração e, ao mesmo

tempo, relaxamento; deixara de tomá-lo desde sexta-feira e o sono estava ruim. Andei me masturbando mais do que gostaria, pois vinha fazendo um esforço de abstinência para ajudar na terapia, que certamente requeria alguma ascese, mas a tensão e o pensamento em Nirvana mexiam com meus desejos. Sentia-me mais ambivalente do que nunca, pois embora acreditasse que não viria a amá-la, Nirvana era desejável, e isso me enchia de dúvidas sobre se deveria continuar com ela ou não; ao mesmo tempo, temia ficar só, sem transar só Deus sabe até quando.

Só sei que me levantei na segunda-feira, última semana de terapia, com uma inquietação e uma angústia muito fortes; agora teria apenas uma única hora de terapia à tarde, uma vez que as sessões de preparo e relaxamento haviam acabado, e o tempo custaria a passar. Fui caminhar e comprar jornal, li até a hora do almoço, cochilei um pouco, e, não obstante, a sensação de angústia persistia.